Conclusão: Perspectivas para a Saúde
As idéias co-construtivistas esboçadas acima, aplicadas à saúde, ao esclarecerem o inexorável vínculo do conhecimento com os sujeitos, sua estrutura biológica, sua cultura, seus valores, sua comunidade e seu modo de vida, vêm clarear uma zona tensa e nebulosa que é a presença progressiva de várias medicinas e terapêuticas no mundo contemporâneo, assim como a ausência de um diálogo significativo entre elas e a biociência.
A epistemologia contemporânea co-construtivista pode contribuir para a compreensão dos conflitos entre a medicina científica e as demais racionalidades médicas e terapias, ao esclarecer que diferenças de estruturas de saber e prática entre elas não se relacionam em geral a hierarquias de veracidade (embora estas possam existir), mas sim a perspectivas culturais e de valores distintas, cosmovisões e visões de ser humano diferente, concepções de saúde e de doença diversas, bem como lutas políticas intensas, algumas atávicas e outras recentes (Feyerabend, 1982, 1991).
A nosso ver, abrandando-se o componente de luta pela verdade e pelo poder social – dos curandeiros oficiais da sociedade –, o que é facilitado pela nova epistemologia aqui anunciada, seria possível o nascimento e desenvolvimento de uma epistemologia comparada que poderia dar à luz, num futuro não distante, uma comparação entre sistemas médicos sem adesão a priori a nenhum deles, pautada nos doentes e sua evolução clínica global (ou seja, não centrada
nos diagnósticos biomédicos, como ocorre agora). Nesse sentido, todas as tradições de cura poderiam ser estudadas em seus próprios termos e assim seria fomentado o seu desenvolvimento e a sua ajuda mútua e comparação.
Como propôs Feyerabend (1991), poderíamos considerar os saberes e práticas em saúde doença como “tradições” de cura, das quais a biomedicina é mais uma, no momento a mais poderosa no Ocidente. Isso permitiria que o monopólio ilusório da cura pela Ciência e pela corporação médica fosse aos poucos relativizado, os preconceitos se atenuariam e diversas tradições de cura, bem como distintas racionalidades médicas, com seus valores vitais, culturais e humanos, poderiam ser reconhecidos e explorados nas suas contribuições para a melhoria da atenção à saúde de forma geral, de modo a enriquecer as possibilidades terapêuticas para os doentes.
Além disso, a própria tradição biomédica poderia se beneficiar do desenvolvimento da epistemologia
co-construtivista, a qual, aplicada à medicina, poderia facilitar uma melhor autocompreensão do que fazem e sabem os terapeutas biomédicos e uma percepção mais tranqüila dos limites desse saber/prática e de suas potencialidades.
Esse co-construtivismo tenderia a facilitar o diálogo com os doentes e a devolução aos médicos do infindável desafio de tratar o melhor possível os adoecimentos dos seus pacientes, por misteriosos que eles sejam, para além de suas doenças cientificamente definidas.
E, ao mesmo tempo, contribuiria para a responsável autorização filosófica, metodológica e ética para o uso e exploração cuidadosos de saberes/práticas em saúde estranhos, não-científicos, antigos e recentes, hoje vetados aos biomédicos.
A esse respeito, por exemplo, as idéias de Feyerabend (1979, 1982, 1985, 1991) são de grande valia teórica, filosófica e política.
Ensaiando um desdobramento disso na pesquisa biomédica, toda uma nova metodologia de teste terapêutico poderia ser desenvolvida para melhorar e adaptar os modelos altamente restritivos, hoje em vigor, na validação científica de intervenções, até para poder abarcar a participação mais ativa dos próprios doentes nos seus tratamentos.
Tal metodologia não precisaria estar somente atrelada às teorias aceitas na biociência, mas antes poderia ser plural sob o ponto de vista teórico, adaptando-se às distintas concepções, práticas e saberes de outras medicinas, também buscando testar e ou comparar tais saberes/práticas.
Essa metodologia poderia ser altamente apegada à evolução clínica dos doentes, como âncora empírico pragmática, de modo a libertar a terapêutica das definições de doenças, tanto da biociência como de outras teorias ou interpretações, bem como respeitar e relativizar estas definições. E poderia, simultaneamente, manter um realismo experimental sustentável eticamente, sempre discutido e compartilhado entre pacientes e terapeutas.
Ela poderia ser auto-reflexiva o bastante para flexibilizar sua rigidez racionalista sem abandonar a razão.
Saber reconhecer-se limitada, localizada em paradigmas e estilos de pensamento ou num sincretismo lúcido, assumido e dosado. Assim, estaria sendo preparado um terreno epistemológico e metodológico para uma expansão e um enriquecimento da terapêutica oficial, hoje dominada e restringida pela quimioterapia e cirurgia e pelos padrões ouro de validação de intervenções (ensaios clínicos controlados, coortes etc).
Estes padrões pautam-se pelos critérios uniformizadores das entidades doenças e seus parâmetros rígidos, fatores de risco etc., exigidos pelos modelos estatísticos e submetidos à grade nosológica e às teorias fisiopatológicas em vigor, como se ambas fossem universais.
Tornando-se mais complexa, limitada e contextualizada, tal metodologia, indiretamente, poderia contribuir para uma melhor formação e responsabilização terapêutica dos biomédicos, contrabalançando a projeção excessiva de poder e responsabilidade na instituição ciência.
Para finalizar, resta comentar que essa tendência co-construtivista aqui mencionada, se está solidamente esboçada de forma dispersa em disciplinas várias – como a epistemologia, a sociologia, história e antropologia da ciência e as ciências humanas em geral –, é desconhecida ou pouco conhecida nas áreas científicas de maior influência social e aí tem sido derrotada na práxis científica (Feyerabend, 1991). Um desses lugares de grande influência, até hoje refratários a idéias desse tipo, parece ser a biomedicina.
Somos forçados a reconhecer que os atores sociais mais resistentes a mudanças como as propostas acima, talvez, sejam os próprios cientistas e biomédicos, ainda submersos em convicções epistemológicas sobre a pureza e exclusividade dos seus métodos científicos para obtenção da “verdade”.
Justamente na saúde, onde parece ser muito promissora, esta perspectiva co-construtivista é praticamente ausente.
Por isso é que necessita ser divulgada e melhor construída e desdobrada.
(Um pequeno exemplo teórico de tal exploração encontra-se em Chibeni [2000]: consiste numa leitura da homeopatia conforme proposta pelo seu fundador S. Hahnemann à luz das idéias de Lakatos [1979]).
Particularmente quanto à formação profissional, uma nova concepção de saber poderia ser construída e ensinada aos terapeutas – médicos principalmente – de base co-construtivista e centrada nos sujeitos, que facilitasse o resgate do “adoecimento do doente” para dentro da biomedicina, obstaculizado epistemologicamente pela centralidade do diagnóstico e da terapêutica nas entidades doenças (Luz, 1996).
Além disso, tal epistemologia, desenvolvida e aplicada, poderia ajudar a entender a construção do saber sobre saúde-doença nos diversos estilos de pensamento (inclusive na ciência), enriquecer a biomedicina em si e abrir o campo da terapêutica a outras medicinas para mútua contribuição, em benefício dos doentes.
É preciso enfatizar que as possibilidades aqui sintetizadas não são mais que potencialidades decorrentes do estudo dos autores da epistemologia citados e de uma primeira aplicação de suas idéias à saúde e à clínica. Julgamos relevantes tanto a elaboração teórica dessas idéias quanto a experimentação das possibilidades práticas e metodológicas esboçadas, desafiadoras que são, as quais apontam para direções diferentes da trilha hegemônica da biociência.
Nessas direções, no que concerne academia, quase tudo ainda está por fazer.
A nosso ver, muito desenvolvimento é necessário para uma melhor compreensão, investigação e desdobramento das sugestões aqui ensaiadas, de modo a consolidar conhecimentos e práticas que dêem utilidade social e medicinal (terapêutica) ao tema. Isso parecem ser tão necessário e promissor quanto difícil.
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Artigo apresentado em 15/10/2001
Versão final apresentada em 21/4/2002
Aprovado em 6/5/2002



