Ciência & Saúde Coletiva
7(2):363-372, 2002 365 ARTIGO 363
1 Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade de Campinas.
Cidade Universitária
Zeferino Vaz, 13081-970, Campinas SP.
charlestesser@uol.com.br
2 Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Charles Dalcanale Tesser 1Madel Therezinha Luz 2
Resumo O artigo parte de alguns dilemas clínicos vividos pelos profissionais e doentes, tais como dificuldades de enquadramento diagnóstico e relacionamento médico-paciente, para relacionar aspectos desses dilemas com a epistemologia hegemônica aplicada na biomedicina, a qual é caracterizada por um paradigma biomecânico, positivista e representacionista, centrado nas entidades doenças da nosografia biomédica.
Estabelece conexão entre esta epistemologia e a ausência atual de um maior e mais harmonioso entrosamento da biociência com outros saberes/práticas de saúde não-científicos.
Como contribuições à busca de resolução dos problemas discutidos são introduzidas algumas idéias epistemológicas provindas da convergência teórica de autores da epistemologia contemporânea das ciências naturais que se constituem em viga mestra de uma inovadora vertente epistemológica ainda em formação, aqui chamada “co construtivista”.
Por fim, são esboçados alguns desdobramentos da aplicação deste “co-construtivismo” na saúde, indicando possíveis contribuições e desafios propostos por essa perspectiva epistemológica para a área da saúde e para a pesquisa biomédica.
Palavras-chave Epistemologia, Metodologia, Medicina alternativa, Medicina social, Medicina preventiva
Introdução
Este artigo oferece uma introdução a certas idéias da epistemologia contemporânea e sua aplicação preliminar ao universo do saber e fazer em saúde, procurando explorar algumas contribuições dessas idéias para atenção à saúde
biomédica e à pesquisa em saúde.
Trata-se de um ensaio que oferece uma crítica à epistemologia hegemônica na saúde tomada como visão epistemológica aplicada na atenção à saúde (e na pesquisa biomédica).
Discute alguns desdobramentos problemáticos dessa visão na prática médica e no relacionamento da biomedicina com outras medicinas ou tradições de cura. Como contribuição ao enfrentamento das questões levantadas, apresenta algumas idéias que se constituem em eixo de uma tendência ainda em formação na epistemologia contemporânea das ciências naturais.
Por fim, ensaia uma primeira aplicação dessas idéias à saúde, discutindo algumas potencialidades e mudanças desafiadoras, daí advindas, na pesquisa médica futura e na clínica biomédica.
O artigo sintetiza resultados parciais de pesquisa de doutorado em andamento, numa abordagem voltada para os desafios da atualidade da atenção à saúde, sendo por isso um texto propositivo.
Enfatiza aspectos aplicados de idéias epistemológicas, sem objetivar discuti-las em sua profundidade especializada ou cotejá-las no debate epistemológico atual, assim como não pretende tratá-las historicamente ou teoricamente, o que não caberia num artigo deste porte.
Propõe-se a apresentá-las e discuti-las resumidamente, dada a hipótese de sua considerável relevância, pouca difusão e alguma originalidade.
Desde já, reconhecemos que fatores históricos, políticos e contextuais têm profunda influência nos problemas abordados, tanto no que diz respeito às questões conceituais quanto prático. O desvio proposital desses fatores se justifica pelo objetivo de fazer um zoom em certos aspectos epistemológicos aplicados, que julgamos dignos de atenção por si só e que comumente não são tratados de forma específica.
Um dos nossos pontos de partida é a percepção da existência de dilemas e conflitos na interação entre médicos e pacientes (Luz, 1997) e entre médicos e demais curadores na sociedade, problemas esses cuja existência é relevante
e notória (Barros, 1997; 2002).
Focalizando a prática clínica biomédica atual, desnudam-se tensões e problemas de comunicação e de confiança entre doentes e terapeutas, notoriamente em relação aos médicos.
Esses problemas podem ser exemplificados por situações muito comuns: médicos e doentes se desentendem; os processos diagnósticos não raro se frustram, geram situações anômicas e por vezes são iatrogênicos. Feitos os diagnósticos, freqüentemente surgem dilemas terapêuticos, limites terapêuticos ou mesmo ausência de terapêutica. Quando a terapêutica é cientificamente consensual, aparecem de novo problemas quanto a seus riscos, seus custos, suas iatrogenias e suas restrições de abrangência (referenciada na patologia, deixa de lado a “longitudinalidade” do processo saúde-doença do paciente). São comuns os dissensos simbólicos entre profissional e doente e, quando isso não ocorre, aparecem as dificuldades de adesão aos tratamentos médicos prolongados, principalmente nas chamadas doenças crônicas, cuja incidência e prevalência parecem só aumentar.
No dia-a-dia da clínica biomédica é muito freqüente que doentes sejam dispensados ou reencaminhados a outra especialidade por falta de diagnóstico. Ou ainda, que sejam tratados de duas doenças como se fossem dois pacientes,
devido à suposta especificidade da terapêutica (Sayd, 1998).
Não é raro que a doença diagnosticada pelo médico tenha pequena intersecção com a constelação de sintomas, sinais, símbolos e sentidos elencados pelo doente como seus problemas de saúde. Igualmente é comum que o médico esgote rapidamente seu arsenal terapêutico sem resolubilidade clínica satisfatória (Tesser, 1999).
Podemos chamar de crise de harmonia clínica ao conjunto desses dilemas e tensões que ocorrem cotidianamente nos atendimentos biomédicos nos serviços de saúde.
Existiriam aspectos epistemológicos do saber/ prática médicos envolvidos de forma relevante nesses problemas?
Nossa hipótese é que sim. Todavia, antes de os abordarmos, vale comentar que, por outro lado, nos últimos 30 anos, no mundo ocidental, outras medicinas e práticas de cuidado e tratamento de saúde vêm ganhando força e adeptos de forma consistentemente crescente. Seja por seu caráter mais econômico ou por estarem angariando clientela cada vez maior, seja por questões mais profundas envolvendo méritos próprios dessas tradições e práticas de cura, os tratamentos ditos
alternativos, paralelos ou complementares vêm sendo cada vez mais respeitados, procurados e inseridos nos âmbitos institucionais de pesquisa e atenção à saúde.
Luz (1996), estudando esse movimento, cunhou a categoria “racionalidades médicas”, significando um sistema lógica e teoricamente estruturado que apresenta cinco dimensões interligadas, a saber, uma doutrina médica, uma morfologia, uma dinâmica vital, um sistema de diagnose e um sistema de terapêutica, embasadas em uma cosmologia.
Distinguiu, assim, entre racionalidades médicas e o que se chamou de terapêuticas alternativas, as quais não apresentam
pelo menos uma dessas dimensões. Segundo a autora, essas racionalidades e outras práticas tradicionais de cura têm a contribuir:
1) na reposição do sujeito doente como centro do paradigma médico;
2) na ressituação da relação médico-paciente como elemento fundamental da terapêutica;
3) na busca de meios terapêuticos simples, despojados tecnologicamente (menos dependentes de tecnologia “dura”),
menos caros e, entretanto, com igual ou maior eficácia em termos curativos nas situações mais gerais e comuns de adoecimento da população;
4) na construção de uma medicina que busque acentuar a autonomia do paciente, e não sua dependência em termos de relação saúde/enfermidade; por fim,
5) na afirmação de uma medicina que tenha como categoria central de seu paradigma a categoria de Saúde e não a de Doença (Luz,1997).
Porém, ainda que socialmente isso se verifique, a velocidade da repercussão dessas mudanças no trato cotidiano dos doentes pelas instituições de saúde biomédicas e seus profissionais tem sido lenta.
Academicamente, o estudo dessas diferentes tradições de cura tem se resumido ao enfoque socioantropológico e político, cujo poder de diálogo e influência na atenção à saúde oficial e no ensino médico é mínimo, se houver.
Para além das barreiras políticas, outras de natureza epistemológica contribuem para dificultar o estudo de e o diálogo com diferentes medicinas ou tradições de cura, deixando entrever o que poderíamos chamar de crise de convivência social e cultural de várias formas diferentes de entendimento e tratamento em saúde-doença.
Doutra parte, a própria epistemologia hoje hegemônica aplicada na área da saúde e na medicina obscurece vários pontos críticos do saber científico e de sua aplicação na clínica, dificultando uma melhor resolução cotidiana dos dilemas da atenção à saúde biomédica, seja na prevenção, seja na terapêutica.
Iniciando uma discussão dos aspectos epistemológicos desses problemas de harmonia clínica e de convivência entre terapeutas (ou medicinas) diferentes, sintetizaremos a seguir uma breve crítica da epistemologia hegemônica aplicada no cotidiano da atenção à saúde e suas implicações nos problemas dessa atenção. Depois disso, discutiremos em linhas gerais uma nova perspectiva epistemológica ainda nascente na ciência e suas possíveis repercussões benéficas sobre a área da saúde e sobre as tensões entre as medicinas existentes, finalizando com algumas perspectivas daí advindas para a pesquisa biomédica e a própria clínica.

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